"A poesia é também uma forma de filosofar, de tentar compreender o movimento da vida, dar-lhe algum sentido, traduzir-lhe para os outros seres, usando mais o sentimento do que a razão. Os ingredientes dessa arte de profundidade filosófica provêm das experimentações das situações que a própria vida fornece, tantas vezes, independente de nossas escolhas. E a tradução é sempre acompanhada de beleza, de leveza, porque não se prende a nenhum proprietário. A poesia se doa a todo aquele que se reconhece e se apropria daquilo que percebe nos seus versos. Está sempre em estado de transformação, sempre interagindo, sempre sendo traduzida segundo a emoção e o conteúdo interno daquele que lê, no momento em que lê. A poesia está sempre viva!"

Sônia Arruda

janeiro 08, 2012

Doce despertar











por Sônia Arruda

Despertou. E um cheiro
de recém-cortadas flores
invadiu as primeiras horas
confudiu-lhe o olfato
misturado ao mar de odores.

Os outros sentidos, aos poucos
despertavam, se libertavam
do emaranhado de lençóis
Lembrou-se do cheiro original
que convidou ao trampolim
e seduziu ao salto visceral

Lembrou-se, ainda,
do mergulho e da doce batalha
a aspereza contra a maciez
das peles, intenso atrito
música de gemidos, um só grito

A língua percorreu a boca
à procura do gosto misturado
em suores, humores e saliva
que, dos limites e da morte
sabia fazer esquecer
Mas não teve nenhuma sorte!

Com dificuldade de quem insiste
abriu os olhos, um por um
bem devagar... e não o viu
Num esforço de resistência
quis voltar ao vale dos sonhos
Tentou, tentou, não conseguiu!

(Mas as horas são inexoráveis
Se recusam a voltar pra trás)

E estava, assim, nesse embate
quando um cheiro forte de café
fez lembrar que a fome não negocia
Desembaraçou-se dos panos
E, sentada na cama, esperou
A saciedade arrumada na bandeja
Que o seu amado lhe trazia

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